Doenças


Diarréias

Apesar do aprimoramento das técnicas de manejo e das estratégias de prevenção e tratamento, as diarreias continuam sendo o problema mais comum e oneroso que afeta os bezerros nas fases iniciais da vida.

Todo criador sabe da importância das diarreias de bezerros sobre a lucratividade da empresa rural. Além das perdas imediatas, geram prejuízos econômicos expressivos atribuídos à perda de animais por morte ou descarte precoce, redução no ganho de peso e crescimento, mão-de-obra para manejar os bezerros doentes, custos dos medicamentos e com honorários do Médico Veterinário.

A crescente tendência de intensificação dos sistemas de produção visando obter maior lucratividade tem causado aumentos significativos na incidência destas doenças.

As diarreias são doenças complexas e multifatoriais, que envolvem o animal, o ambiente, a nutrição e os agentes infecciosos. A ocorrência da doença depende da relação entre a condição imunológica dos bezerros e a carga infectante a qual eles estão submetidos. Vale lembrar que os bezerros com menos de 30 dias de vida ainda são altamente dependentes da imunidade passiva, recebida na colostragem, e que uma alta porcentagem dos bezerros (aproximadamente 40%) apresenta falhas na transmissão desta.

Diarreia não é uma doença por si só. Na verdade ela é um sintoma, um sinal comum a diversas doenças. Na prática, não é fácil determinar com exatidão qual doença está acometendo um animal com diarreia, até porque, muitas vezes, mais de um agente está envolvido simultaneamente. De qualquer maneira, uma grande quantidade de bactérias (Escherichia coli, Salmonella spp.), vírus (Rotavirus, Coronavirus), protozoários (Eimeria spp., Cryptosporidium sp.) e helmintos estão envolvidos nos quadros de diarreia.

É importante lembrar que infecções mistas, com dois ou mais patógenos envolvidos, são muito mais comuns que infecções por um único agente, e que os patógenos que são problema em uma propriedade podem mudar a cada ano. Além disso, em muitos casos um problema nutricional não detectado pode estar combinado com agentes infecciosos.

O principal fator predisponente para o aparecimento das diarreias é a falha na transmissão da imunidade passiva, entretanto, por ser uma doença multifatorial, as interrelações animal-ambiente assumem uma importância fundamental e interferem no desenvolvimento da resposta imune. Destacam-se as seguintes condições como predisponentes:

Higiene: instalações e utensílios em condições sanitárias precárias, alta densidade e falta de agrupamento de animais por faixas etárias, baixa qualidade da água. 

Nutrição: dietas que não atendem aos requisitos nutricionais, fornecimento de leite em quantidade e intervalo de tempo incorretos, sucedâneos do leite de baixa qualidade nutricional, alimentos mofados ou deteriorados. 

Outras doenças concomitantes: principalmente infecções respiratórias e umbilicais. 

A tabela apresenta a distribuição dos principais agentes causadores de diarréia, de acordo com a idade dos bezerros:

Agente Idade (dias)

E. coli enterotoxigênica < 3

Coronavírus 05 - 21

Rotavírus 05 - 15

Salmonella 05 - 42

Criptosporidium 05 - 35

Eimeria > 20

Helmintos > 15

Adaptado de FACURY FILHO et al. (2003)

Rotavírus é a causa mais comum de diarreia em bezerros recém-nascidos, entretanto, infecções por Coronavírus e por E. coli enterotoxigênica apresentam maiores taxas de mortalidade, tornando maior o seu impacto econômico.

Diarreia de origem nutricional também pode ocorrer. O bezerro jovem é extremamente limitado em termos de digestão de nutrientes durante as 3 primeiras semanas de vida e este fato está diretamente relacionado à ausência e inatividade de algumas enzimas digestivas. A atividade da maior parte destas enzimas aumenta a partir da 3ª semana de vida, permitindo a utilização de maior diversidade de ingredientes na formulação das dietas. Sucedâneos do leite contendo alta inclusão de proteínas de origem láctea asseguram os melhores desempenhos das bezerras até 30 dias de vida devido, principalmente, à maior digestibilidade, excelente perfil de aminoácidos e inexistência de fatores anti-nutricionais. 

A ocorrência de diarreias em bezerros jovens é frequentemente súbita e aguda. Os animais tornam-se rapidamente desidratados, embora os sinais clínicos possam ser pouco perceptíveis. A avaliação da quantidade de água perdida é importante para determinação da estratégia de reidratação. Os animais com diarreia tornam-se rapidamente desidratados, com perdas potenciais de 6 a 12% do volume de seus fluidos corporais em apenas um dia.

Como reconhecer

Grau de desidratação e sinais clínicos associados

Perda de água corporal (%) Sinais Clínicos

0 - 5 Leve depressão e diminuição no volume urinário

6 - 8 Olhos fundos, perda de elasticidade da pele, depressão, bocas e narinas ressecadas, maior redução no volume urinário.

9 - 11 Sinais clínicos listados mais pronunciados, extremidades frias, animal em decúbito.

12 - 14 Choque e morte.

Adaptado de FISHER & MARTINEZ (1975)

Como tratar

A chave para o sucesso no tratamento das diarreias é a rápida detecção do problema e intervenção imediata, com administração de uma solução bem balanceada para reidratação oral contendo eletrólitos e nutrientes. Se a reidratação for feita logo no início da diarreia, a taxa de sucesso do tratamento pode chegar a 95% ou mais. Por muitos anos, recomendou-se a suspensão do fornecimento de leite ou sucedâneo, aos primeiros sinais de diarreia. Felizmente, esta prática está sendo abolida, pois priva os animais de sua principal fonte de nutrientes e água. A recuperação dos bezerros é acelerada quando a dieta líquida está associada à hidratação oral, pois ocorre uma diminuição na perda de peso dos animais. A tabela abaixo mostra um exemplo de solução para hidratação oral, que tem apresentado excelentes resultados a campo.

Solução eletrolítica utilizada para hidratação oral de bezerros

Ingrediente Quantidade (g)

Cloreto de Sódio 5,0

Cloreto de Potássio 1,0

Bicarbonato de Sódio 4,0

Glicose 20,0

Água 1 litro

Adaptado de FACURY FILHO et al. (2003).

Esta fórmula pode ser utilizada em todos os tipos de diarreia. A hidratação oral pode ser feita com sucesso até 8% de desidratação. Acima disso, deve-se avaliar o potencial de retorno econômico do animal antes de instituir tratamentos onerosos. Nestes casos, o déficit deve ser corrigido por via intravenosa, continuando posteriormente com a hidratação oral. A quantidade de fluido a ser administrada por bezerro deve ser calculada da seguinte forma:

Déficit = peso vivo x % desidratação

Mantença = 50 a 100ml/Kg PV

Perdas antecipadas = 50ml/Kg de PV

A quantidade total deverá ser fornecida aos bezerros num período de 24h. A solução não deve ser administrada junto com a dieta líquida, respeitando-se um intervalo de 2h, para não haver interferências na digestão. Bezerros com menos de 30 dias de vida não digerem sacarose (açúcar comum), portanto, não se deve utilizá-la em substituição à glicose.

A antibioticoterapia deve ser utilizada em quadros em que os animais apresentarem febre e depressão severa. 

Como evitar

Existem quatro metas principais de um manejo efetivo para prevenção de diarreias:

Fornecimento de colostro de alta qualidade e em quantidades adequadas o mais rápido possível após o nascimento dos bezerros; 

Redução do estresse e do desafio infeccioso dos animais, propiciando-lhes instalações limpas, secas, bem dimensionadas e higienizadas com acesso fácil à água de boa qualidade física e microbiológica; 

Fornecimento de dietas balanceadas para suprir os requisitos nutricionais, assegurando que os bezerros estejam saudáveis e mais resistentes às doenças; 

Observações frequentes dos animais para assegurar tratamentos rápidos e adequados aos doentes. 

Produtos Vinculados: Antidiarréico, Oxitrat-LA, Vetflogin


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